|
Sexta-feira, Outubro 21, 2005
Da série: família realmente é algo complicado.
"É irmão do meu irmão, mas não é meu irmão. Quem é?"
Pra 99% das crianças, a resposta era óbvia: eu.
Pra mim também era óbvia, mas era uma resposta ligeiramente diferente: o Juliano.
Acho que meus pais se casaram e se divorciaram vezes demais.
.
.
.
Sempre que ouvia a pergunta "Afinal de contas, quem é a Ludmila?", minha irmã Luana explicava: é a ex-namorada do ex-enteado da mãe do irmão por parte de mãe da minha irmã por parte de pai.
Aí as pessoas respondiam: ah.
A sensação de que meus pais se divorciaram e se casaram vezes demais fica cada vez mais forte.
.
.
.
Quando eu era pequena e me perguntavam quantos irmãos eu tinha, eu não tinha uma resposta na ponta da língua. Tinha uma pergunta.
- Contando os irmãos de todo mundo?
Aí as pessoas não sabiam se respondiam sim ou não. Nem pergunta na ponta da língua elas tinham, coitadas.
Mais tarde descobri que não tenho nenhum irmão. Tenho 3 meio-irmãos e tenho 7 alguma-coisa se for contar os irmãos de todo mundo. Quando perguntam, prefiro mudar de assunto. Tempo estranho, né?
Realmente. Meus pais se casaram e se divorciaram vezes demais. De alguma forma isto também envolveu filhos demais. Mas ninguém consegue explicar direito como.
9:46 AM
| | Escárnios e Maledicências:
Domingo, Setembro 18, 2005
Que calor, hein?
Entrar na comunidade "eu odeio silêncios constrangedores" é uma das coisas mais inúteis para se fazer no orkut. Todo mundo odeia os silêncios constrangedores, afinal de contas, sejam eles à la Chaves - todo mundo se cala e um débil mental continua falando BEM ALTO o que não devia - ou os de elevador. Odiar os silêncios constrangedores é uma das poucas coisas que unem a humanidade. Eu não tenho os números exatos nem nada, mas aposto que a pesquisa "o que é que você mais odeia?" foi a única com a mesma resposta em todos os países do mundo. E adivinhem só qual foi ela.
O estranho é que eu não odeio os silêncios de elevador tanto assim. Não tenho a ambição de fugir à única regra que une a humanidade, claro, mas acho que o silêncio de elevador pode sim ser superado por algo muito mais terrível: o papo de elevador.
Moro em condomínio e acho que tenho o último elevador plano-inclinado do Rio. Isto significa que ele é cheio de originalidade e sobe em diagonal ao invés de "subir pra cima". Isto faz com que se tenha um minuto para apreciar a vista enquanto o elevador capenga pelo seu percurso.
Uma idéia muito legal, poder apreciar a vista ao invés de olhar para os botões. Mas, como sempre, as pessoas estragaram uma ótima idéia. Invariavelmente, o vizinho bundão olhará pela janela, verá uma nuvem ou um sol bonito e falará sobre o tempo.
- Tá frio, né? Deve chover...
- Hahaha. Claro que deve, esqueci o guarda-chuva. Tinha que chover.
- Hehehehehe.
E o silêncio e a apreciação da vista são transformados em uma conversa mongol com piadinhas sem graça. E não é culpa da janela. Eu já tinha tentado jogar a culpa nela antes - "se alguém tapasse esta porcaria, ninguém olharia pra nuvem e sentiria vontade de falar sobre a chuva" - mas isso acontece até nos elevadores normais. Ninguém olha pro espelho e ao reparar a pele maltrada do seu vizinho "puxa, seus poros parecem meio sujos, hein?" com o tom de poxa-vida-mas-que-coisa empregado em conversas sobre o clima. Nunca vi ninguém se propor a debater "será que se o elevador começar a cair e a gente pular alguns segundos antes do impacto a gente morre do mesmo jeito?".
A saída de falar sobre o futebol só funciona se você for homem e tiver encontrado o porteiro. No elevador é o tempo maluco, o Katrina e a frente fria que conversa chata nunca varia.
Aliás. A frente fria não só prejudica a plantação como também prejudica o convívio social e a apreciação da vista. Mas por favor, vamos falar de outra coisa.
3:03 PM
| | Escárnios e Maledicências:
Domingo, Junho 19, 2005
Da série: posts dramáticos sobre educação física
Ou: a explicação racional para as catástrofes naturais
Aula de vôlei.
Estava na reserva. Obviamente era para o bem dos meus colegas e a felicidade geral da nação, como boa pessoa altruísta que eu sou. A professora, entretanto, não tinha essa mesma visão. Sem ter a menor noção do perigo, ela me mandou sacar.
Eu acertei 4 vezes seguidas, pontuando alegremente. Mesmo quando o outro time passou a sacar, foi porque eles conseguiram defender a bola e atacar. Nada de bolas na rede ou isoladas, pelo menos não por mim. Além disso, defendi quando a bola maligna veio pra mim e mais tarde ainda consegui mandá-la para o outro lado alegremente, originando um ponto.
Lindo, mas tremendamente assustador. Porque não sei se vocês sabem, mas eu sou uma catástrofe, em relação a esportes. Não foi talento nato nem porcaria nenhuma, porque eu sou realmente ruim. Anos sendo uma das últimas pessoas a serem escolhidas deixam isso bem claro.
O que aconteceu, na verdade, foi um desequilíbrio da natureza. Já aconteceu antes, vai acontecer de novo.
Mas ninguém sai impune.
Pessoas como eu são verdadeiros desastres em quadra. Se por algum acaso cruel do destino uma delas jogar bem, a catástrofe não terá desaparecido. Ela apenas vai para outro lugar. Vide os supostos desastres naturais.
Aquela explicação picareta envolvendo placas tectônicas e tsunami? Puro picaretismo! Foi aquele dia em que o menininho gordinho e sedentário driblou o time adversário inteirinho e fez um golaço. Três vezes na partida.
As enchentes em São Paulo? Quem liga para as chuvas e os estreitamentos de rios, afinal de contas? Foi aquela menina magricela e de óculos cheios de graus que fez 10 cestas de três pontos em um só jogo de basquete.
Terremotos no Japão? O nome dele era Aristeu e ele nunca tinha visto um skate antes. Foi muito aplaudido, mas se no dia seguinte o colocarem em cima do skate, ele vai só cair e quebrar a perna.
Felizmente, as pessoas ruins costumam cumprir seus deveres. Quando lhes é solicitado, fracassam miseravelmente em educação física e ficam até de recuperação pelo bem de seu país.
Por isso, não olhem tão feio para aquele menino que quebrou o dedo na borda na piscina. Não discriminem aquela pobre garotinha que deixou a bola cair no chão quando o recorde de toques era 54. Todos esses são, na verdade, heróis, corajosos defensores do mundo. Se o Apocalipse ainda não chegou, se um meteoro não se chocou contra a Terra, é porque eles cumprem seus deveres. Salve!
Ah, eu ainda não sei que catástrofe aconteceu depois do jogo de vôlei. Na dúvida, amiguinhos, corram para as montanhas.
3:06 PM
| | Escárnios e Maledicências:
Terça-feira, Maio 17, 2005
Você e a escola
Você compreende o termo "paradoxo" quando sua professora de português passa 50 minutos falando sobre como o tempo não rende na sua turma.
Você vê que seus colegas de primeiro ano são iguais aos da quinta série quando eles jogam borracha no ventilador, papel picado no cabelo dos outros e giz uns contra os outros.
Você percebe que não vai aprender nada quando o professor interrompe a aula para cantar alegremente.
Você deixa de acreditar na humanidade quando avisam que o colégio deve entrar em greve e alguém vira e diz "oba, férias".
E você sabe que chegou ao fundo do poço quando a sua média bimestral mais baixa é a de educação física.
***
O retorno dos posts nonsenses
Ela formada em gestão do lar, ele trabalhando na fábrica do pai.
A hora de arrumar as meias na gaveta superior era o grande momento de descontração.
Ele tinha cinco blusas idênticas, uma para cada dia de trabalho. Ela era do lar com diploma um pouco acima do fogão.
Não elevavam a voz em público. Ela não tinha alteração de humor na TPM, ele nunca esquecia o dia dos namorados.
Ninguém tinha um gramado tão verde, uma cerca tão branca, uma parede tão limpa.
Um dia o diploma pegou fogo e só sobrou a grama verde, a cerca ficando marrom.
*
Um dia um disco voador pousou no quintal, na grama verde, e ela correu para servir café. A quantidade de açúcar não lhes agradou.
*
Um dia foram aparar a grama verde e viram que era sintética. Tiveram alergia ao plástico e morreram.
*
Um dia olharam pela janela e viram que o disco voador tinha levado a grama. Ficaram tão surpresos que esqueceram o fogo do café ligado e não viram o diploma queimando.
***
Da série: guias práticos para garçons, churrasqueiros e afins, que sempre ficam confusos com os meus pedidos.
Parte I - A chegada
1. Pra que este sorriso tão grande, afinal de contas? Porque eu sei que sou muito simpática, senhora funcionária que fica na porta, mas não acredito que você tenha ficado com saudades de mim. O papelzinho, por favor, obrigada. Não precisa tentar parecer tão feliz em me ver. Obrigada.
Parte II - A carne
1. Ao ouvir "ao ponto", faça o favor de não entender "mugindo e tentando comer as minhas batatas fritas, tá?". Ou pelo menos avise antes, para que eu tenha tempo de pegar comida suficiente para todas nós, já que não gosto de dividir.
2. Veja só: "corte fino" não quer dizer fino em relação a paredes de igrejas. Se ficar na dúvida, emprestarei esquemas explicativos pra você com todo o prazer.
Parte III - A balança
1. Não olhe com esta cara de "só isso? Mas você está em fase de crescimento. Cadê as verduras? Você precisa parar de pular as saladas!". Minha avó e demais amigas vegetarianas desempenham este papel muito bem.
2. E quando pesar a sobremesa, por favor, não compare com o peso da comida com um olhar tão crítico. Aí já fica sendo papel das minhas irmãs preocupadas com a saúde e o tamanho das calças.
Parte IV - A bebida
1. Se eu pedi só "guaraná", não fique na dúvida se é normal ou diet, por favor. Não fico feliz ao ser confundida com adolescente anoréxica contadora de calorias, nem com obesa fora da realidade, que precisa da sugestão do garçom para começar um regime. A caneta azul assassina continua na mochila. Tenha medo, tenha muito medo.
Parte V - A despedida
1. É sério, querida, pare de sorrir assim ou a sua cara vai rachar.
1:59 PM
| | Escárnios e Maledicências:
Segunda-feira, Abril 18, 2005
Tive que ir ao oftamologista outro dia - porque esbarrar em postes e não reconhecer seus próprios amigos costumam ser indicadores universais do aumento dos muitíssimos graus de miopia.
Obviamente, até ser chamada para ser atendida, envelheci alguns anos e ganhei mais alguns graus de miopia para a minha coleção. Inevitável não pensar no inferno.
Li, ouvi, vi, sei lá, em algum lugar que também não me lembro, algo sobre o inferno como uma eterna fila de espera. Versões alternativas de infernos são até bem populares - porque aqueles foguinhos e caldeirões e espetos já estão muito manjados. Sartre descreveu o inferno certa vez como passar a eternidade numa sala com pessoas extremamente chatas. Já vi um filme em que cada um tinha "o que merecia" dependendo de como foi em vida e então o menino passava a eternidade num jantar com parentes, durante o qual uma tia velha e com dentes amarelos tentava beijá-lo.
Nunca acreditei em vida após a morte, mas já criei até a minha própria versão do inferno. No meu inferno, eu teria aulas de educação física no sábado à tarde durando mais ou menos para todo o sempre. O elevador do meu condomínio pararia para um conserto eterno de 10 dias e eu teria que escalar mais de 100 degraus para chegar em casa, carregando a minha mochila com todos os quilos do mundo, repleta de livros inúteis sobre matérias detestadas. Teria uma semana para fazer um trabalho sobre "os mapas na era digital", pegaria ônibus lotado, cheio de gente exigindo que os estudantes andem pendurados no espelho retrovisor. A minha orientadora me mandaria não encostar em votos porque oh meu deus não pode. Meus graus de miopia subiriam para 7 e 8 e eu literalmente não enxergaria um palmo a frente do nariz. E durante as eternas aulas de educação física de sábado à tarde, a professora me mandaria ter força no braço.
Parei de culpar Murphy por isso, que nem ele poderia influenciar tanto assim a vida de alguém. Encontrei a resposta nos meus arquivos de Dezembro. A bala de caramelo. Minha vida após a morte mistura clichês de filmes diferentes. Eu morri e não me dei conta, cada um tem o que merece por seus atos quando vivo, inferno é algo personalizado. No episódio da bala de caramelo, o irmão Hugo realmente não captou a mensagem e eu realmente tive a morte mais ridícula da Terra. As pesquisas sobre balas seguras e as mães me usando como desculpa pros filhos não comerem doce antes de jantar eu não sei, mas a parte de inferno personalizado, juro que é verdade.
Obs: amiguinhos do meu coração (ahan), estou completamente sem tempo e deveria estar estudando física pra ontem. Esse meu sumiço é mais falta de tempo do que criatividade. Mas me aguardem.
5:58 PM
| | Escárnios e Maledicências:
Quinta-feira, Abril 07, 2005
Aula de desenho.
Professor: E esse ponto aqui, como vai se chamar?
Turma: *Silêncio*
Professor: Hein? Qual o nome do ponto?
Turma: *Silêncio*
Professor: *Entrando em desespero e apontando freneticamente para o título no quadro VISÃO LATERAL DO PONTO*
Turma: Aaah, sim...
Professor: Então..?
Turma: *Silêncio*
***
Flora, a democracia e a implosão do Universo
Finalmente tivemos nossas eleições para representante de turma.
Tudo lindo e democrático, coordenado pela nossa querida orientadora educacional. Ou não.
Para começar, os repetentes não poderiam se candidatar. Começamos bem, com a orientação já se metendo para decidir em quem podemos ou devemos votar.
Não fui candidata, e fui coagida a ser mesária pela orientadora tirana. Sim, mesária. Tive a importantíssima participação de fazer os alunos assinarem ao lado de seu número de chamada, além de controlar para que a "urna" não saísse voando - o que quase aconteceu uma vez. Mais difícil do que parece.
Eis que uma amiguinha minha termina de votar e dirige-se a mim. Como a tal não é exatamente conhecida por sua rapidez e destreza, uma pequena fila começou a formar-se atrás dela. Então, enquanto ela assinava seu nome, eu simplesmente dobrei seu voto e coloquei na urna.
Ooohhh.
Eu sei, não parece exatamente o apocalipse do qual todos falam. Até porque algumas pessoas já tinham feito isso, só que a orientadora não tinha visto. Quando ela me viu encostar no voto da minha coleguinha, deu um salto e veio na minha direção.
- Você não pode ENCOSTAR no voto das pessoas!!!!!!!
- Por que não? - Perguntei, enquanto tentava não cair da cadeira com o susto. Nem mandá-la pastar, o que viesse primeiro.
- Porque não!!! Os alunos devem colocar seu voto DIRETAMENTE na urna, você não pode encostar.
Nisso a minha coleguinha já estava quase morrendo de sono e uma fila de verdade estava começando a se formar.
- Eu só dobrei o voto dela pra ir mais rápido, calma. - Tentei me explicar, depois continuei. - Eu não vou mudar magicamente o voto dela com o meu toque não. Calma.
- Mas você não pode encostar! Não pode!
- Isso não faz o menor sentido.
- Mas não pode!!!
Depois da discussão repleta da maturidade, minha vida ficou arruinada. Quer dizer, eu ainda peguei os votos e dobrei mais algumas vezes quando entregaram pra mim - e quando fiz isso ela voltou a dizer que NÃO PODIA, OH MEU DEUS. Depois, tive que desviar do voto das pessoas que entregavam pra mim, alegando que se eu encostasse neles, as estrelas poderiam se apagar e isto acabaria de uma forma ou outra prejudicando a democracia. Duas ou três coleguinhas que assistiram à cena aproveitaram a hora de assinar para me chamar de ladra imunda e anti-democrática. Uma outra amiguinha fez questão de ENCOSTAR, OH MEU DEUS, o seu voto na minha mão. Ficamos muito surpresas quando o Universo não implodiu, obviamente.
Ainda assim, nunca fiquei com tanta raiva de mim mesma por não conseguir levantar uma sobrancelha só.
6:44 PM
| | Escárnios e Maledicências:
Domingo, Abril 03, 2005
Da série: leis de Murphy noturnas
I. Os insetos acreditam que seu nome é "Fauna"
Ter que se chamar Flora é ruim. Sofrer com trocadilhos envolvendo Fauna também é péssimo, mas a coisa fica pior de verdade quando os insetos com pernas demais passam a acreditar nisso.
Moro tão no meio do mato quanto poderia, morando no Rio de Janeiro. Aturo sagüis, passarinhos, borboletas borboleteando, libélulas, etcétera. Da janela da minha casa, vejo mais mato que favelas, pasmem.
E insetos do mal.
Não falo de baratas malignas e transmissoras de doenças e do mal, embora elas também tenham pernas demais. Falo de besouros assassinos que entram pela janela e me atacam no meio da noite durante meu soninho de beleza.
A compreensão paterna e materna nunca vem. Já fui chamada de "histérica" por pouca coisa, como por espalhar Raid ineficazmente por metade da casa ao perseguir um marimbondo ou só por ter um pequeno mas barulhento surto ao ter um besouro agarrado ao meu cabelo. Não só isso como minha mãe diz que eu sou intolerante e que os bichinhos podem ser muito bem seres de outro planeta querendo fazer contato e revelar o segredo do universo. Ela me culpa diariamente por ter impedido a humanidade de descobrir o sentido da vida.
E alguém precisa avisar para o pessoal do "Raid" que colocar fotos de baratinhas mortas na embalagem e se declarar muito mau e prejudicial aos insetos não é suficiente.
II. A música ruim é a que toca mais alto
Às três horas da manhã, acordada por besouros e morrendo de insônia, pude escutar as mais variadas músicas de péssima qualidade. Dos pagodes com refrão "volta pra miiim, não não é o fiiim" a funks "eu vô ti cumê, ahan ahan, a bala vai cumê". Várias músicas cheias de onomatopéias, da pior qualidade e no volume mais alto. No dia seguinte, uma pequena maratona de oito tempos de aula, incluindo prova de educação física com uma professora que definitivamente não ama você.
Dá-lhe Murphy.
3:30 PM
| | Escárnios e Maledicências:
Domingo, Março 27, 2005
Flora e o basquete (I)
Flora encara a bola laranja do mal. Enorme, dura, laranja e dotada da capacidade de desviar da cesta sempre que é arremessada por Flora.
É a sua vez de jogar a famigerada bola em uma cesta acima de sua cabeça. Bem acima. Porque Flora tem 1,60. Cesta lá em cima.
A professora manda Flora ter "mais força nesse braço". Flora controla-se para não gritar que ter força no braço vai contra tudo o que ela acredita, que braço forte só em momento patriótico com bandeirinha do Brasil. Depois disso, chega.
***
Flora e o basquete (II)
O time de Flora tem uma pessoa a mais, por isso terá que deixar alguém na reserva. Flora, sempre prestativa, se propõe a ir pra reserva. Pede, implora. Disputa no par-ou-ímpar com outra colega igualmente interessada.
Perde.
Depois da sua derrota no par-ou-ímpar, Flora torce pra ser derrotada na quadra. Mas não. O time de Flora ganha e ela tem que jogar duas vezes seguidas. A professora acha que Flora precisa treinar pra "ter força nesse braço", de forma que Flora não vai pra reserva nenhuma vez.
Flora olha para os céus - na verdade, olha para o teto da quadra - e pergunta o que Murphy tem contra ela. A professora olha torto. Aluna sem força no braço é ruim, aluna sem força no braço e esquizofrênica é pior ainda.
Flora precisa aprender os tipos de passes de basquete para a prova.
Sofre bastante.
***
Flora e a interminável busca por um estojo que não pareça um coelho rosa e felpudo
Eu não tenho estojo. Minhas canetas e lapiseiras e borracha ficam rolando no bolso da mochila, junto com a chave, os óculos escuros, as balas de maçã verde, o dinheiro e um brinquedinho do Kinder Ovo. Mas não é por desinteresse da minha parte.
Estou perto de fazer um guia das papelarias do Rio de Janeiro, de tanto que eu as tenho visitado ultimamente em busca de um estojo. Não quero O estojo. Só um estojo já está bom. Não importa muito o material, desde que separe minha caneta azul assassina e minha lapiseira demoníaca do resto do meu "material escolar". Só.
Mas não. Eu tenho encontrado estojos felpudos, estojos da Barbie, estojos da Hello Kitty, estojos imitando uma calça jeans. Eu encontrei um estojo com estrelinhas coloridas e purpurina, encontrei um estojo rosa felpudo e brilhante, encontrei um estojo-propaganda de marca igualmente brega.
Na.da.
Quando é que pararam de fazer estojos e começaram a fazer variações demoníacas e meigas de bichinhos felpudos? Hein? Hein? Será que eles nunca pararam pra pensar que as pessoas podem querer um estojo liso e sem purpurina? Algo que sirva simplesmente pra guardar o material?
Se eu passar a usar uma caixa de óculos para guardar minhas canetas, não perguntem, ou a caneta azul assassina entrará em ação.
2:33 PM
| | Escárnios e Maledicências:
Segunda-feira, Março 21, 2005
Lady Murphy
Da série: como ter a responsabilidade de uma bala juquinha e queimar todo o miojo
1. Tenha um ataque nerd e passe a manhã na internet. Perca a hora.
2. Seja lembrada por uma criatura MSNênica maligna que há um dever de física que você nem lembrava que existia por fazer. Bloqueie a criatura e termine de ver seus e-mails. Perca a hora de verdade.
3. Transforme o teórico e rápido banho de 10 minutos em um momento para cantar desafinadamente a trilha sonora do "Casamento do meu melhor amigo". Desista de tentar classificar a perda da hora.
4. Tente fazer sua lição de física enquanto o miojo não fica pronto. Transforme-se numa jumentinha e empaque na quarta questão. Xingue Einstein, a professora de física e os passarinhos que cantam. Esqueça completamente o miojo.
5. Jogue água demais no miojo numa tentativa desesperada de salvá-lo. Certifique-se de que seu miojo sabor galinha virou miojo sabor papel reciclado. Tente resolver a última questão de física enquanto a água extra evapora. Esqueça completamente seu miojo. De novo.
6. Cometa o erro de olhar o relógio enquanto come e queime a língua com o miojo sabor papel reciclado com aipo carbonizado.
7. Na hora de espetar o emblema horroroso na camisa nada charmosa, espete o dedo várias vezes. Tente limpar a mancha de sangue com água oxigenada. Quando a mancha amarronzada enorme se formar, grite bem alto e assuste seus vizinhos.
8. Saia com a camisa parcialmente molhada e não se esqueça da mochila que pesa todas as toneladas do mundo, repleta de livros que você não precisa sobre matérias que você não quer aprender.
9. Espere 7 minutos pelo elevador, corra e tropece para pegar o ônibus. Na hora de sair, grite "tchau" ao invés de "obrigada" para o motorista. Fazer com que ele pense que você é retardada é essencial.
10. Chegue na escola totalmente descabelada e lembre que nas terças-feiras você só entra no segundo tempo, não no primeiro. Faça nada por praticamente 45 minutos.
Passo bônus: caso tenha se esforçado muito e tenha chegado até aqui, sinta muita fome - o miojo cabonizado ficou tão ruim que não serviu de almoço - e vá comprar uma empada de frango na lanchonete em frente ao colégio. Quando retornar ao colégio e já não puder mais voltar à lanchonete, ache um fio de cabelo na sua empada. Tenha um pequeno ataque no banheiro feminino. Mais tarde, quando um coleguinha perguntar sobre o que você está escrevendo e tentar ler por cima do seu ombro, ataque-o com a caneta azul. Satisfação garantida ou meia empada de frango de brinde.
A pior parte é que é verdade.
E depois ainda me acham "madura para quem tem 15 anos". Preciso urgentemente de uma babá. Ou um psicólogo, o que vier primeiro.
9:00 AM
| | Escárnios e Maledicências:
Terça-feira, Março 15, 2005
No Liceu Franco Brasileiro, nós podíamos usar o short de educação física. Era a escolha de muitas das garotas de lá, que não satisfeitas em usarem o tal short, dobravam os tais várias vezes, para que ficassem curtíssimos.
E ficavam.
Isso se tornou uma questão muito importante para a coordenação do colégio. Depois, se transformou também na principal função dos inspetores: controlar o comprimento dos shorts.
As demais questões, como levar giz para os professores, cuidar das cadernetas e conter os alunos em tempo vago, eram só pra os pobres inspetores não ficarem entediados em seu tempo livre.
No Pedro II, as saias também são curtas, mas ninguém liga. Sem a função principal, as demais não são realizadas. Os professores levam seu próprio giz. Os alunos só descobrem que estão em tempo vago depois que o professor se atrasa por mais de 15 minutos. E se você me perguntar como é uma caderneta do Pedro II, eu não vou saber responder.
E o inspetor da porta ainda reclama se alguém se atrasa um pouquinho. É pra ser da série "o sujo falando do mal lavado", não é possível.
***
Os meus últimos 200 almoços em restaurantes envolveram picanha ao ponto, farofa, arroz e batata frita. A variação máxima era a adição ou não de feijão ou molho à campanha. Com a mesma sobremesa. Dos 200 almoços, uns 180 foram no mesmo restaurante.
Outro dia, no tal restaurante, resolvi mudar a sobremesa.
- Ué. - Perguntou a mulher que pesava a sobremesa. - Você não vai comer a torta crocante hoje não?
Eu já tinha adivinhado que não gostasse de fortes emoções, mas não imaginei que eu já fosse assim tão previsível. Credo.
8:19 AM
| | Escárnios e Maledicências:
|