Domingo, Março 27, 2005

Flora e o basquete (I)

Flora encara a bola laranja do mal. Enorme, dura, laranja e dotada da capacidade de desviar da cesta sempre que é arremessada por Flora.
É a sua vez de jogar a famigerada bola em uma cesta acima de sua cabeça. Bem acima. Porque Flora tem 1,60. Cesta lá em cima.
A professora manda Flora ter "mais força nesse braço". Flora controla-se para não gritar que ter força no braço vai contra tudo o que ela acredita, que braço forte só em momento patriótico com bandeirinha do Brasil. Depois disso, chega.

***

Flora e o basquete (II)

O time de Flora tem uma pessoa a mais, por isso terá que deixar alguém na reserva. Flora, sempre prestativa, se propõe a ir pra reserva. Pede, implora. Disputa no par-ou-ímpar com outra colega igualmente interessada.
Perde.
Depois da sua derrota no par-ou-ímpar, Flora torce pra ser derrotada na quadra. Mas não. O time de Flora ganha e ela tem que jogar duas vezes seguidas. A professora acha que Flora precisa treinar pra "ter força nesse braço", de forma que Flora não vai pra reserva nenhuma vez.
Flora olha para os céus - na verdade, olha para o teto da quadra - e pergunta o que Murphy tem contra ela. A professora olha torto. Aluna sem força no braço é ruim, aluna sem força no braço e esquizofrênica é pior ainda.
Flora precisa aprender os tipos de passes de basquete para a prova.
Sofre bastante.

***

Flora e a interminável busca por um estojo que não pareça um coelho rosa e felpudo

Eu não tenho estojo. Minhas canetas e lapiseiras e borracha ficam rolando no bolso da mochila, junto com a chave, os óculos escuros, as balas de maçã verde, o dinheiro e um brinquedinho do Kinder Ovo. Mas não é por desinteresse da minha parte.
Estou perto de fazer um guia das papelarias do Rio de Janeiro, de tanto que eu as tenho visitado ultimamente em busca de um estojo. Não quero O estojo. Só um estojo já está bom. Não importa muito o material, desde que separe minha caneta azul assassina e minha lapiseira demoníaca do resto do meu "material escolar". Só.
Mas não. Eu tenho encontrado estojos felpudos, estojos da Barbie, estojos da Hello Kitty, estojos imitando uma calça jeans. Eu encontrei um estojo com estrelinhas coloridas e purpurina, encontrei um estojo rosa felpudo e brilhante, encontrei um estojo-propaganda de marca igualmente brega.
Na.da.
Quando é que pararam de fazer estojos e começaram a fazer variações demoníacas e meigas de bichinhos felpudos? Hein? Hein? Será que eles nunca pararam pra pensar que as pessoas podem querer um estojo liso e sem purpurina? Algo que sirva simplesmente pra guardar o material?
Se eu passar a usar uma caixa de óculos para guardar minhas canetas, não perguntem, ou a caneta azul assassina entrará em ação.

Segunda-feira, Março 21, 2005

Lady Murphy
Da série: como ter a responsabilidade de uma bala juquinha e queimar todo o miojo

1. Tenha um ataque nerd e passe a manhã na internet. Perca a hora.
2. Seja lembrada por uma criatura MSNênica maligna que há um dever de física que você nem lembrava que existia por fazer. Bloqueie a criatura e termine de ver seus e-mails. Perca a hora de verdade.
3. Transforme o teórico e rápido banho de 10 minutos em um momento para cantar desafinadamente a trilha sonora do "Casamento do meu melhor amigo". Desista de tentar classificar a perda da hora.
4. Tente fazer sua lição de física enquanto o miojo não fica pronto. Transforme-se numa jumentinha e empaque na quarta questão. Xingue Einstein, a professora de física e os passarinhos que cantam. Esqueça completamente o miojo.
5. Jogue água demais no miojo numa tentativa desesperada de salvá-lo. Certifique-se de que seu miojo sabor galinha virou miojo sabor papel reciclado. Tente resolver a última questão de física enquanto a água extra evapora. Esqueça completamente seu miojo. De novo.
6. Cometa o erro de olhar o relógio enquanto come e queime a língua com o miojo sabor papel reciclado com aipo carbonizado.
7. Na hora de espetar o emblema horroroso na camisa nada charmosa, espete o dedo várias vezes. Tente limpar a mancha de sangue com água oxigenada. Quando a mancha amarronzada enorme se formar, grite bem alto e assuste seus vizinhos.
8. Saia com a camisa parcialmente molhada e não se esqueça da mochila que pesa todas as toneladas do mundo, repleta de livros que você não precisa sobre matérias que você não quer aprender.
9. Espere 7 minutos pelo elevador, corra e tropece para pegar o ônibus. Na hora de sair, grite "tchau" ao invés de "obrigada" para o motorista. Fazer com que ele pense que você é retardada é essencial.
10. Chegue na escola totalmente descabelada e lembre que nas terças-feiras você só entra no segundo tempo, não no primeiro. Faça nada por praticamente 45 minutos.
Passo bônus: caso tenha se esforçado muito e tenha chegado até aqui, sinta muita fome - o miojo cabonizado ficou tão ruim que não serviu de almoço - e vá comprar uma empada de frango na lanchonete em frente ao colégio. Quando retornar ao colégio e já não puder mais voltar à lanchonete, ache um fio de cabelo na sua empada. Tenha um pequeno ataque no banheiro feminino. Mais tarde, quando um coleguinha perguntar sobre o que você está escrevendo e tentar ler por cima do seu ombro, ataque-o com a caneta azul. Satisfação garantida ou meia empada de frango de brinde.

A pior parte é que é verdade.
E depois ainda me acham "madura para quem tem 15 anos". Preciso urgentemente de uma babá. Ou um psicólogo, o que vier primeiro.

Terça-feira, Março 15, 2005

No Liceu Franco Brasileiro, nós podíamos usar o short de educação física. Era a escolha de muitas das garotas de lá, que não satisfeitas em usarem o tal short, dobravam os tais várias vezes, para que ficassem curtíssimos.
E ficavam.
Isso se tornou uma questão muito importante para a coordenação do colégio. Depois, se transformou também na principal função dos inspetores: controlar o comprimento dos shorts.
As demais questões, como levar giz para os professores, cuidar das cadernetas e conter os alunos em tempo vago, eram só pra os pobres inspetores não ficarem entediados em seu tempo livre.
No Pedro II, as saias também são curtas, mas ninguém liga. Sem a função principal, as demais não são realizadas. Os professores levam seu próprio giz. Os alunos só descobrem que estão em tempo vago depois que o professor se atrasa por mais de 15 minutos. E se você me perguntar como é uma caderneta do Pedro II, eu não vou saber responder.
E o inspetor da porta ainda reclama se alguém se atrasa um pouquinho. É pra ser da série "o sujo falando do mal lavado", não é possível.

***

Os meus últimos 200 almoços em restaurantes envolveram picanha ao ponto, farofa, arroz e batata frita. A variação máxima era a adição ou não de feijão ou molho à campanha. Com a mesma sobremesa. Dos 200 almoços, uns 180 foram no mesmo restaurante.
Outro dia, no tal restaurante, resolvi mudar a sobremesa.
- Ué. - Perguntou a mulher que pesava a sobremesa. - Você não vai comer a torta crocante hoje não?
Eu já tinha adivinhado que não gostasse de fortes emoções, mas não imaginei que eu já fosse assim tão previsível. Credo.

Domingo, Março 13, 2005

Da série: tem algo muito errado com a minha educação

"Manhêêê, nhaguuahuhasggdugiudfuo" diz a vozinha ao longe.
"Não tô ouvindo! Vem aqui e fala direito, garota!" responde a compreensiva mãe, do outro lado da casa.

Quando você é o caçula, nada do que você tem a dizer faz qualquer outra pessoa da casa ir até você. A preguiça não é uma desculpa boa o suficiente. Se você quer dizer alguma coisa, pare de gritar do outro cômodo e vá dizer pra sua mãe direito, oras. Se sua mãe quer dizer alguma coisa, largue de preguiça e vá ver o que ela quer, ó filho desnaturado.
Fui a filha caçula e fui educada assim, indo de um cômodo ao outro sempre que queria me comunicar com alguém. Quando não queria também, já que tinha que ir lá atender ao precioso e importante chamado.
Um dia, eu me revoltei. O "Flora, vem até a cozinha" foi respondido com um sonoro "não". Não queria. Não iria por nada de mundo algum à cozinha, porque não estava com vontade, porque tinha o direito de não querer. Não quis, não fui.
"Ah, é? Então faça o seu jantar sozinha!". A revolta paterna foi tão grande quanto a minha revolta infanto-juvenil. Minha comida teve gosto de papel desde todo o sempre, vocês sabem. Jantei Fandangos e sorvete.

*
Nada nunca me deixou com sono tão rápido quanto minhas atuais aulas de português. Nós ainda estamos estudando a mesma matéria desde o primeiro dia de aula, só que com a professora explicando de um novo jeito a cada dia. Não só um novo jeito, como um jeito mais chato. Como se a chatice evoluísse e crescesse e ficasse mais forte - parece ter tomado sustagem ou coisa assim.
"Lapiseira Poly 7.0 da Faber Castel usada como arma letal pela primeira vez na história". Primeira capa dos jornais. Em breve.

Segunda-feira, Março 07, 2005

i
Não sei vocês, mas eu realmente não entendo matemática. Não estou falando sobre equações de segundo grau, trigonometria, conjuntos e afins, que isso é facinho. Estou falando sobre coisas absurdas como números elevados a zero dando um. Como assim, um número nenhuma vez dá um? O número nem deveria estar na famigerada equação, então como ele pode simplesmente dar um?
Com o passar dos anos, superei isso - ou simplesmente calei a boca e parei de perguntar. Mas agora, com as doses de remédio finalmente normalizadas, surgiu um número imaginário maligno.
i.
Uma das primeiras coisas que a professora disse sobre números ao quadrado foi que todos os números ao quadrado dão um número positivo. O céu era azul, os pássaros cantavam e a vida era linda. E números ao quadrados acabavam em números positivos.
Mas não o i.
O i, elevado ao quadrado dá -1, aquele safadinho. Meu mundo caiu.
Decidi que não quero lidar com contas que terminem em i por nada desse mundo. Já me bastam os números nenhuma vez dando um. Farei faculdade de Jornalismo, Indumentária, Sociologia e até "gestão do lar" na Estácio, mas não vou lidar com o i. Acabei de perder meu prêmio Nobel de física quântica. O mundo acabou de perder a garota que ia descobrir a cura da AIDS. Culpem o i.