Tive que ir ao oftamologista outro dia - porque esbarrar em postes e não reconhecer seus próprios amigos costumam ser indicadores universais do aumento dos muitíssimos graus de miopia.
Obviamente, até ser chamada para ser atendida, envelheci alguns anos e ganhei mais alguns graus de miopia para a minha coleção. Inevitável não pensar no inferno.
Li, ouvi, vi, sei lá, em algum lugar que também não me lembro, algo sobre o inferno como uma eterna fila de espera. Versões alternativas de infernos são até bem populares - porque aqueles foguinhos e caldeirões e espetos já estão muito manjados. Sartre descreveu o inferno certa vez como passar a eternidade numa sala com pessoas extremamente chatas. Já vi um filme em que cada um tinha "o que merecia" dependendo de como foi em vida e então o menino passava a eternidade num jantar com parentes, durante o qual uma tia velha e com dentes amarelos tentava beijá-lo.
Nunca acreditei em vida após a morte, mas já criei até a minha própria versão do inferno. No meu inferno, eu teria aulas de educação física no sábado à tarde durando mais ou menos para todo o sempre. O elevador do meu condomínio pararia para um conserto eterno de 10 dias e eu teria que escalar mais de 100 degraus para chegar em casa, carregando a minha mochila com todos os quilos do mundo, repleta de livros inúteis sobre matérias detestadas. Teria uma semana para fazer um trabalho sobre "os mapas na era digital", pegaria ônibus lotado, cheio de gente exigindo que os estudantes andem pendurados no espelho retrovisor. A minha orientadora me mandaria não encostar em votos porque oh meu deus não pode. Meus graus de miopia subiriam para 7 e 8 e eu literalmente não enxergaria um palmo a frente do nariz. E durante as eternas aulas de educação física de sábado à tarde, a professora me mandaria ter força no braço.
Parei de culpar Murphy por isso, que nem ele poderia influenciar tanto assim a vida de alguém. Encontrei a resposta nos meus arquivos de Dezembro. A bala de caramelo. Minha vida após a morte mistura clichês de filmes diferentes. Eu morri e não me dei conta, cada um tem o que merece por seus atos quando vivo, inferno é algo personalizado. No episódio da bala de caramelo, o irmão Hugo realmente não captou a mensagem e eu realmente tive a morte mais ridícula da Terra. As pesquisas sobre balas seguras e as mães me usando como desculpa pros filhos não comerem doce antes de jantar eu não sei, mas a parte de inferno personalizado, juro que é verdade.
Obs: amiguinhos do meu coração (ahan), estou completamente sem tempo e deveria estar estudando física pra ontem. Esse meu sumiço é mais falta de tempo do que criatividade. Mas me aguardem.
6:58 PM
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Aula de desenho.
Professor: E esse ponto aqui, como vai se chamar?
Turma: *Silêncio*
Professor: Hein? Qual o nome do ponto?
Turma: *Silêncio*
Professor: *Entrando em desespero e apontando freneticamente para o título no quadro VISÃO LATERAL DO PONTO*
Turma: Aaah, sim...
Professor: Então..?
Turma: *Silêncio*
***
Flora, a democracia e a implosão do Universo
Finalmente tivemos nossas eleições para representante de turma.
Tudo lindo e democrático, coordenado pela nossa querida orientadora educacional. Ou não.
Para começar, os repetentes não poderiam se candidatar. Começamos bem, com a orientação já se metendo para decidir em quem podemos ou devemos votar.
Não fui candidata, e fui coagida a ser mesária pela orientadora tirana. Sim, mesária. Tive a importantíssima participação de fazer os alunos assinarem ao lado de seu número de chamada, além de controlar para que a "urna" não saísse voando - o que quase aconteceu uma vez. Mais difícil do que parece.
Eis que uma amiguinha minha termina de votar e dirige-se a mim. Como a tal não é exatamente conhecida por sua rapidez e destreza, uma pequena fila começou a formar-se atrás dela. Então, enquanto ela assinava seu nome, eu simplesmente dobrei seu voto e coloquei na urna.
Ooohhh.
Eu sei, não parece exatamente o apocalipse do qual todos falam. Até porque algumas pessoas já tinham feito isso, só que a orientadora não tinha visto. Quando ela me viu encostar no voto da minha coleguinha, deu um salto e veio na minha direção.
- Você não pode ENCOSTAR no voto das pessoas!!!!!!!
- Por que não? - Perguntei, enquanto tentava não cair da cadeira com o susto. Nem mandá-la pastar, o que viesse primeiro.
- Porque não!!! Os alunos devem colocar seu voto DIRETAMENTE na urna, você não pode encostar.
Nisso a minha coleguinha já estava quase morrendo de sono e uma fila de verdade estava começando a se formar.
- Eu só dobrei o voto dela pra ir mais rápido, calma. - Tentei me explicar, depois continuei. - Eu não vou mudar magicamente o voto dela com o meu toque não. Calma.
- Mas você não pode encostar! Não pode!
- Isso não faz o menor sentido.
- Mas não pode!!!
Depois da discussão repleta da maturidade, minha vida ficou arruinada. Quer dizer, eu ainda peguei os votos e dobrei mais algumas vezes quando entregaram pra mim - e quando fiz isso ela voltou a dizer que NÃO PODIA, OH MEU DEUS. Depois, tive que desviar do voto das pessoas que entregavam pra mim, alegando que se eu encostasse neles, as estrelas poderiam se apagar e isto acabaria de uma forma ou outra prejudicando a democracia. Duas ou três coleguinhas que assistiram à cena aproveitaram a hora de assinar para me chamar de ladra imunda e anti-democrática. Uma outra amiguinha fez questão de ENCOSTAR, OH MEU DEUS, o seu voto na minha mão. Ficamos muito surpresas quando o Universo não implodiu, obviamente.
Ainda assim, nunca fiquei com tanta raiva de mim mesma por não conseguir levantar uma sobrancelha só.
7:44 PM
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Da série: leis de Murphy noturnas
I. Os insetos acreditam que seu nome é "Fauna"
Ter que se chamar Flora é ruim. Sofrer com trocadilhos envolvendo Fauna também é péssimo, mas a coisa fica pior de verdade quando os insetos com pernas demais passam a acreditar nisso.
Moro tão no meio do mato quanto poderia, morando no Rio de Janeiro. Aturo sagüis, passarinhos, borboletas borboleteando, libélulas, etcétera. Da janela da minha casa, vejo mais mato que favelas, pasmem.
E insetos do mal.
Não falo de baratas malignas e transmissoras de doenças e do mal, embora elas também tenham pernas demais. Falo de besouros assassinos que entram pela janela e me atacam no meio da noite durante meu soninho de beleza.
A compreensão paterna e materna nunca vem. Já fui chamada de "histérica" por pouca coisa, como por espalhar Raid ineficazmente por metade da casa ao perseguir um marimbondo ou só por ter um pequeno mas barulhento surto ao ter um besouro agarrado ao meu cabelo. Não só isso como minha mãe diz que eu sou intolerante e que os bichinhos podem ser muito bem seres de outro planeta querendo fazer contato e revelar o segredo do universo. Ela me culpa diariamente por ter impedido a humanidade de descobrir o sentido da vida.
E alguém precisa avisar para o pessoal do "Raid" que colocar fotos de baratinhas mortas na embalagem e se declarar muito mau e prejudicial aos insetos não é suficiente.
II. A música ruim é a que toca mais alto
Às três horas da manhã, acordada por besouros e morrendo de insônia, pude escutar as mais variadas músicas de péssima qualidade. Dos pagodes com refrão "volta pra miiim, não não é o fiiim" a funks "eu vô ti cumê, ahan ahan, a bala vai cumê". Várias músicas cheias de onomatopéias, da pior qualidade e no volume mais alto. No dia seguinte, uma pequena maratona de oito tempos de aula, incluindo prova de educação física com uma professora que definitivamente não ama você.
Dá-lhe Murphy.
4:30 PM
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